quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pelo direito de sentir e EXPRESSAR a raiva!

Bom, aqui vos fala uma mãe (Manhê! para os íntimos), não sou P.H.D em nada, nem psicóloga, nem especialista em comportamento infantil, embora tenha 10 anos de prática em birras & manhãs (e decoração de festinhas!rsrs).

Muito observo as pessoas e os ambientes à minha volta, tenho isso como hábito de vida, e é impossível não perceber as mudanças nada sutis que sofremos nos últimos anos.
O que muito vejo e converso sempre é sobre a imaturidade dos pequenos cidadãos em formação, que daqui uns anos, constituirão a geração adulta mundial.
Mas, o que ainda pouco se fala, é sobre a imaturidade dos responsáveis por esses cidadãos, ou seja, nós, pais!
Sim, me incluo nessa também, pois acredito plenamente que a maternidade, assim como a maioria das atividades deste mundo, só seja profundamente compreendida através do aprendizado empírico, e não puramente intuitivo e teórico, como muita gente pensa.
Ler livros, assistir documentários e fazer cursos de gestante NÃO VÃO te preparar para enfrentar um trabalho de parto de 16 hrs ou uma reação inesperada à anestesia; Não vão te preparar para lidar com um bebê em uma crise aguda de cólica ou dor de ouvido. Não vão te dar discernimento quando você estiver a mais de 24 horas sem dormir e se achando a pior criatura do universo. E quer saber? Está tudo bem! É assim mesmo que a gente aprende, é assim que amadurecemos e desta forma que a vida flui. 
Sentir-se impotente, despreparada e com RAIVA é normal, aliás, a raiva é um sentimento genuíno que habita dentro de todo ser humano.
Botar para fora, chorar e berrar (por que não?) fazem parte do processo e sem dúvidas aliviam muito para não pirarmos de vez.

Então, me diga: Por que mandamos nossos filhos engolirem o choro? Pararem imediatamente de "birra", por que respondemos ao "chilique' com gritos mais altos e os mandamos "Pensar" em um canto, sozinhos, por algum tempo?
Porque eles precisam de disciplina, claro, e porque eles têm que aprender que não é com escândalo que se consegue as coisas. Concordo plenamente. 
Mas, vamos pensar mais um pouco... Você gostaria de chegar em casa, após um dia péssimo no trabalho e uma discussão com um colega ou seu chefe, chegar stressado, cansado e quando fosse extravasar a raiva e conversar com um parente ele te dissesse, aos berros, para ficar quieta, parar de frescura e ir pro seu quarto e não sair até que se acalmasse?
Eu, sinceramente, ficaria com mais raiva ainda.

Agora imagine com os pequenos, que não têm ideia do que um banho quente e um chocolate pode fazer numa hora de raiva! Imagine com um serzinho que nem sabe direito o que está sentindo, que não sabe controlar as emoções, nem as boas, nem as ruins. 
O que acontece quando tomamos essas atitudes? Vira uma bola de neve né?! Eles ficam mais irritados e se tornam incontroláveis e acabam com a boa energia da casa, com nosso bom humor, transtornam o ambiente. Daí pegam no sono depois de muito chorar e gritar e nós, mães, ficamos com aquele sentimento de culpa, vamos lá e os enchemos de beijos para aliviar nossos corações.

E que tal se experimentássemos outra atitude?
Veja bem, não estou de forma alguma falando para deixar o seu filho espernear no corredor do supermercado atracado numa caixa de sabão em pó, porque cismou que quer levar de qualquer jeito. Não estou dizendo para deixa-lo ser agressivo e responder com ignorância. 
Mas estou falando para analisarmos o que é, de fato, uma birra, um ataque de mimo sem razão, do que é o sentimento de raiva legítimo quando se tem um motivo para isso.

Minha filha mais velha (10 anos) chegou outro dia da escola muda, cara fechada, e jogou a mochila no chão do quarto dela, as roupas que estavam em cima da cama e se jogou de tênis e tudo e afundou a cara no travesseiro. Eu, óbvio, fui lá dar bronca "Garota! O que é isso?! Recolhe JÁ essas coisas do chão!" e ela disse "Já vou!" e eu insisti "Já vou? Já vai nada! Vai é AGORA!!BORA! ARRUMA ESSAS COISAS E SE ACALMA QUE NINGUÉM AQUI TEM CULPA DOS SEUS PROBLEMAS!" e quando ela levantou para catar, estava chorando, com o rosto vermelho, recolheu tudo embolou e tacou em cima da cama. 
....(respirei fundo umas 10 vezes)... "Julie, vamos conversar." - "Não quero!". 
Eu disse "Tem certeza?" e ela disse "SIM!!" e eu então saí do quarto, com raiva também pelas roupas emboladas, mas fui fazer minhas coisas. Meia hora depois sai ela do quarto, ainda chorando e grita com a irmã "NÃO ME PERTURBA!" e  eu fui lá outra vez, já aos berros "PARA! CHEGA DE MAU HUMOR! NÃO AGUENTO MAIS!" e ela intensificou o choro e voltou pro quarto. Fui lá bufando feito um dragão, mas pensei comigo "minhas ordens não estão surtindo efeito e eu estou ficando tão descontrolada como ela. não posso." daí eu entrei, respirando fundo de novo e disse "Ok Julie. Sentir raiva é normal. Eu te entendo, depois você arruma as roupas. Mas tente respirar pois você está vermelha e depois desça pra tomar um suco, um bainho, que eu vou servir o jantar, tem macarronada que você adora." e fui saindo quando ela começou "Mãe! Você não sabe o que a Carol fez! Ela pegou meu estojo porque eu não quis emprestar minha caneta rosa e jogou todas as minhas coisas no chão! Quando eu fui reclamar a professora entrou e mandou eu sentar, eu tentei falar mas ela nem me ouviu e ficou todo mundo rindo de mim, eu tive que catar todos os meus lápis pelo chão com as pessoas rindo de mim e escondendo as coisas para que eu não pegasse e a professora quase me mandou pra diretoria! EU ESTOU COM RAIVA!!! EU QUERIA BATER NELA!!! EU QUERIA SUMIR DAQUELA SALA!"
Deixei que ela botasse mesmo toda raiva pra fora! Chorou, gritou e....por fim, se acalmou. Foi tomar banho e me deu um abraço depois dizendo que já ia subir para dobrar as roupas.
Aí você vai me dizer, "Ah, mas ela já tem 10 anos" e eu te digo que exatamente por isso que eu também fui rever minhas atitudes com a minha caçula, de 6.
Não quero que elas cresçam crianças sufocadas e contidas e que tenham algum tipo de dificuldade em expressar seus sentimentos. 
Nem que elas tenham receio de falar comigo ou expor seus problemas em casa.
Acredito que seja qual for a idade do pequeno e o "problema", que para nós não é nada mas para uma criança é de fato um problema, que o diálogo ainda é a melhor opção.
Minhas filha são pessoas e têm SIM o direito de expressar as emoções!  Incluindo raiva. Desejos, antipatia. Elas podem formar opiniões sobre sabores, pessoas, músicas e lugares. Afinal, são pessoas, não robôs!
Nunca obriguei a dar beijinho em parente chato que elas não gostam, mas nunca permiti que destratassem ninguém. Nunca forcei amizade com filho de amiga minha que elas não têm afinidade, nunca obriguei a emprestar brinquedo pra ninguém, mas sempre ensinei a fazer tudo isso com respeito. 

Quando elas começam a brigar entre si e se xingarem e se baterem eu paro a briga na hora dizendo "EI! POR ACASO ALGUÉM AQUI EM CASA XINGA E BATE EM VOCÊS? COMO VOCÊS SE SENTIRIAM SE AGORA EU XINGASSE A BATESSE EM VOCÊS?"
E percebo que isso é um balde de água fria na discussão. 
E hoje em dia, quando começa a birra eu falo "Vamos conversar sobre isso?!" e ARGUMENTO os motivos de não poder comprar o brinquedo agora, de não poder comer chocolate todo dia...claro que não resolve sempre, claro que continuo me stressando e os conflitos continuam, mas conflitos também são parte da vida.
Mas, certas vezes, eles precisam só de um pouco mais de compreensão e atenção, por isso que hoje eu tento ouvir o meu coração e não agir no ímpeto porque li em tal lugar que essa é a decisão correta a se tomar ou porque TEORICAMENTE tal atitude funciona com Fulano e Cicrano.
Eu estou aprendendo o mecanismo de funcionamento das minhas filhas, da minha família, como pessoas individuais que elas são. Acho que passamos muito tempo presas em generalizações errôneas. Cada ser é único, por tanto, suas ações e reações e necessidades também são.
Ao invés de estudarmos tanto as teorias, que tal estudarmos mais a personalidade dos nossos pequenos? Prestarmos real atenção neles e não só em acabar com a DR o mais rápido possível?!
Fica a reflexão!
:)

Beijos e até a próxima!

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