segunda-feira, 13 de março de 2017

A incrível descoberta da singularidade



A incrível descoberta da singularidade


Nem feitiço, nem mágica. Acordei e fui pra frente do espelho, aquela manhã, e não segui meus protocolos, ignorei o relógio e me encarei mais que o habitual.

 Analisei minuciosamente cada ruga perto dos olhos, cada marca de expressão ao sorrir, e me dei conta de que o tempo, embora apressado, permanecia meu amigo e que eu tinha realmente muito mais sardas do que eu pensava. E assim, como todas as paixões, subitamente, me peguei apaixonada. Não quis esconde-las com maquiagem, como sempre fiz desde que me entendia por gente. Naquela manhã também não quis disciplinar o meu cabelo com secador como rotineiramente fazia até então, acho que a minha alma estava um tanto indisciplinada e tal rebeldia foi a melhor coisa que poderia me acontecer naquela ocasião.Não fui a única a reparar nas “sardinhas” e elas me renderam elogios, enquanto colegas me perguntavam se eu havia saído com pressa de casa, eu sorria e dizia que não, pelo contrário, havia gasto bastante do meu tempo para ter um tête à tête comigo. Tête à tête são necessários!

Não pude deixar de notar também, embora quisesse, que já havia 
muito mais fios brancos do que eu imaginava para alguém da minha idade, e me lembrei do meu querido pai nesse instante, ele riria de mim se estivesse aqui... E isso fez com que eu me alegrasse, ouvi sua sonora e inconfundível gargalhada dizendo “É a vida! Só não envelhece quem já morreu!”, e agradeci por ainda estar nesse mundo.


A sensação de liberdade foi tão absoluta e intensa aquela manhã, que eu decidi estender para outros aspectos da vida. Descobri então, que não precisava usar lingerie vermelha para seduzir ninguém, que um conjuntinho de algodão esconde muitos encantos. Que 36 ás vezes, não é um manequim perfeito...Que um abscôndito sorriso pode dizer muito mais que milhares de palavras. Que mãos, se expressam muito melhor que bocas!

Descobri que ter trinta anos é fantástico e que eu não sou a pessoa que achava que seria quando tinha 20, mas que eu aprendi a gostar mesmo de mim, de verdade, e não me troco por que eu era anos atrás.


Passei a perdoar meu passado, aceitar meus erros e enfatizar os acertos. Passei a conviver bem com a minha dualidade atávica, e fiz da ansiedade, aliada. 

Não quero esconder as sardas, as tatuagens, nem os quadris, até porque, eu descobri que os quadris têm vida própria e um encanto que nenhum outro canto de um corpo tem. Eu não quero parecer ser mais magra. Não quero que revistas e estereótipos ditem minha diretriz.


Me empoderei na marra; Com garra e com medo mesmo. Paguei um preço caríssimo, mas hoje, respondo por mim. Hoje sei o meu lugar no mundo e como eu batalhei para chegar aqui.

Me lembro bem que a estrada foi complicada, derrapei e desviei incontáveis vezes, e na grande maioria dessas vezes, estive sozinha. 

As pessoas torcem pro nosso sucesso, DESDE QUE, não seja nunca maior que o delas. Essa é uma triste verdade que hoje trago tatuada no coração e que faço questão de não esquecer. Também me lembro com frequência das pessoas que eu nem esperava e que me ofereceram a mão, rezo por elas, todas as noites, porque aprendi a rezar na aflição. Aprendi a confiar em Deus quando não me restava mais nada e hoje, rezo na paz e na alegria, de um barco vindo de uma tempestade e que atracou, enfim, num porto seguro.

Descobri que amor não é tudo. Que só amor não basta quando os corpos não se encaixam; Quando as mãos não se entrelaçam; Quando os olhos não namoram mais. E que chega uma hora, não sei se por mero costume ou cansaço, mas que a gente descobre quão fantástica pode ser a nossa própria companhia e que não precisamos esperar uma ocasião especial para abrir àquele vinho. 

Não precisamos fingir que gostamos de comida japonese quando a alma pede uma lasanha bolonhesa! Não precisamos gemer mais baixo, falar mais baixo, e sonhar mais baixo. Não é incrível? Não precisamos mais ser simpáticos com quem não queremos e não precisamos dizer SIM pra tudo com medo de levar bronca dos nossos pais. Não precisamos andar com o cabelo sempre liso, batom vermelho para dizer que somos poderosas, e gritar nossas verdades. 

Porque chega essa hora, que a gente aprende a rir sozinha e não estamos mais aqui pra discutir por bobagem... A gente aprende que não tem que se enquadrar, se encolher pra caber no mundo de ninguém, não é verdade?!

A gente aprende como pode ser extraordinária a descoberta da própria singularidade. E passa a achar graça da mesmice!

A gente se dá conta, de que a genuína felicidade não se compra em boutique, mas se dá nos pequeninos prazeres de descobrir-se e de USUFRUIR-SE!


A gente descobre que o tempo pode ser bom amigo e um ótimo conselheiro, e que devemos escutá-lo, bem como deveríamos ter escutado mais nossas mães... Nunca é tarde para começar. Nunca é tarde para voltar a estudar, para trocar de emprego, para pintar o cabelo de loiro e entrar no balé! Nunca é tarde para ser quem se quer. É tarde para continuar presa nesse clichê.


Deitei-me descoberta sob as estrelas e descobri-me de pudores, para então, descobrir, que um mundo só é muito pequeno pra quem traz um Universo inteiro dentro de si.



Bruna Stamato

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