quinta-feira, 17 de março de 2016

Cuide bem do que restou de nós

E então acabou. Não existe mais o “eu e você”. Não ouvi nem fogos de artifícios e nem tiros. Ninguém morreu. Tampouco ninguém comemorou.
Nós precisávamos mesmo nos deixar partir, mas isso não quer exatamente dizer que todo aquele amor partiu de nós. Você pegou os seus livros? Não esquece as suas roupas no varal. Eu coloquei na minha mala só o essencial. Por isso, estou deixando os rancores aqui. Você os pega pra si ou os joga fora, por favor? Estou levando bem mais de ti... do que eu gostaria. Você, cuide bem do que de mim em você restou. Estou saindo quase com a mala vazia. E a mente abarrotada de Porque´s infinitos. Eu não sei se você sabia...mas já havia deixado algumas coisas nossas na casa de amigos. Separe o que você quiser e pode ficar com a coletânea dos Beatles. Só não vale arrependimento ao escutar “Here, There and Everywhere” mas chorar pode, chorar é sempre válido. Te desejo um choro intenso, não de tristeza, mas de alívio, e que ao lavar a alma e fazer sua catarse, você olhe pro nosso álbum de fotografias e diga “Ok. Valeu a pena.” , e que nesse momento, todo o sofrimento vire então...poeira. Porque no fim das contas, de tantas contas, de tantas histórias, de tantas memórias, o que sobra é mesmo somente uma poeira fina e aquele alguém que te abraçava tão forte na cama, agora passa por você na rua e quase nem cumprimenta, vira rápido a esquina; Finge que não viu. Aparenta tranquilidade enquanto vive na tormenta. Enquanto tenta curar um amor febril. Vá logo limpar sua poeira. Olhe pelo lado bom, você pode ir jogar futebol tranquilo e agora pode usar as duas mesinhas de cabeceira. Eu sei que não deveria fazer piadas numa hora como essa, mas você me conhece, é tudo brincadeira...é pra tentar descontrair, é pra tentar disfarçar meu coração em prantos, fingindo rir. É pra tentar impedir que meus cacos se espalhem por aí. Por favor, bata a portar quando sair. Se ficou alguma coisa minha contigo não precisa devolver, não use de pretexto pra me ver. Eu já aprendi a viver sem tantas coisas, não é um par de sapato ou uma bolsa que vai me fazer falta, acredite, eu consigo sobreviver. Já você...aprenda a conviver com essas minhas coisas na sua nova casa, mesmo que você se livre delas, várias outras pequenas coisas te lembrarão de mim a todo momento, porque o que tivemos não foi um verão apenas, nem uma ficada de final de semana...nós nos fundimos por completo, nos confundimos em absoluto, nos tornamos repletos nesse farto amor, fomos felizes durante muito tempo, mas é isso, acabou. Não vamos ficar nos remoendo. Mas posso ligar pra sua mãe no Natal? Vou levar um presente, se você não se importa. Desculpa a invasão, mas não tenho como fingir que nada existiu nem vou ficar me escondendo. Você finja se puder. Veja quanto da nossa poeira o seu tapete comporta...Varra tudo. Mas cuide bem do que restou de nós, tanto do bonsai que eu te dei, quanto das memórias guardadas lá no fundo. E siga tranquilo, já que não podemos mais estar juntos, essas memórias nos farão companhia quando estivermos sós, vivendo cada um no seu perfeito mundo.

Um comentário:

  1. Que coisa linda que me fez chorar de satisfação. Texto lindo , sinto que foi escrito pra mim. Obrigada de coração

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