quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O pior dos bandidos

Você se levanta, dá um suspiro profundo e o ar não preenche os pulmões. Na hora do almoço você ainda está assim, com essa sensação de respiração presa, na verdade parece que você dorme e acorda com uma estaca cravada no esôfago. As comidas até perderam um pouco o gosto e teu filme preferido ficou totalmente sem graça. Dormir já não é um alívio é uma fuga; Quando se consegue dormir; Quando a cama não vira purgatório. O coração acelera várias vezes ao dia, nos outros momentos em compensação, parece que tu já não sente mais teu coração. Parece que há um vazio imensurável alma à dentro e nenhum acalento mundo à fora. Você toma um banho de meia hora...mas a água não leva tua saudade embora. Você já não sorri mais como antes. Nada te consola. Mesmo dentro de um estádio cheio ou de frente pro computador, você tenta desviar o foco mas a lembrança da pessoa ainda te assola. Os olhos dela não saem da sua memória. O cheiro dela se materializa enquanto você, mais uma noite, entre teus lençóis vazios, agoniza. Acorda no susto algumas vezes, deixa a tv ligada no baixo, como se alguma coisa conseguisse preencher esse espaço... Nos sonhos ele(a) vem te ver, apaixonado como antes, você consegue ouvir o som daquela gargalhada inconfundível e acredita ser real, por breves instantes. Ao levantar a mesma rotina se repete. Você já não sabe onde é o começo e o fim dessa dor e ai de quem disser que saudade é dor que dá e passa. A saudade é a dor mais intensa que tem. É a dor de tudo que foi muito bom um dia e acabou. Saudade é a prova irrefutável que amor eterno existe. E que amor de verdade, persiste. Mesmo quando você nega pra si mesmo, por três vezes diante do espelho, não adianta, a saudade não nos permite disfarce. Mesmo quando você tenta esquecer e tenta achar abrigo em outro abraço, ela vai estar contigo quando ninguém mais estiver. Mesmo quando você deixar as lágrimas rolarem à revelia, na esperança que ela se esvaia, ela ainda vai resistir, porque a única coisa tão forte quanto um amor profundo é saudade intrínseca, daquelas que se tornam perpétuas, que viram uma doença crônica. Certos dias você acha que ela te abandonou, até ouvir aquela música ou ouvir certo nome. Você se desespera, tenta domá-la, prepara uma gaiola resistente e tenta abafar sua voz, mas o único lugar onde você consegue prender a saudade é no seu âmago, bem à fundo onde ninguém mais enxergue. Mas...você sabe que ela está lá. A vida segue, você arruma outro alguém, compra uma cama maior e mais um travesseiro... mas o amor é algo sorrateiro. Ele estava à espreita, esperando a deixa. E a deixa perfeita é ela! A saudade! Não adianta se o cara te atrai, se faz sexo profissional, tudo que você queria,admita, é aquele amor banal, que você não precisava se preocupar com a lingerie certa, se havia engordado um pouco no fim de semana ou se estava o dia todo de pijama, você queria aquele sorriso bobo assistindo um comercial de televisão, você queria aquele cara babaca preparando pipoca na sua cozinha enquanto deixava um filme baixando no computador, você não queria estar agora jantando nesse restaurante caro, você queria estar comendo aquela pizza requentada da noite passada, noite aquela que vocês foram dormir e nem fizeram amor mas...o amor estava ali! Nada mais era preciso ser feito! Era tudo tão idiota e tudo tão perfeito! Você soluça ao se perguntar como tudo chegou ao fim, tenta achar explicações lógicas para a invenção mais ilógica do mundo: O amor. Você planeja uma viagem, muda até de cidade, tem 1 milhão de argumentos plausíveis para dizer que não pode ser o que pode ser, para explicar um inexistente Porque, para tentar se convencer de que o amor não pode mais existir ali...mas tudo o que você queria era esquecer do mundo e voltar correndo, pra´quele cara sem graça que você deixaria em breve, como vivia dizendo. Mas ninguém pode repetir o passado e certas vezes na vida pontos finais não podem ser convertidos em reticências. Algumas pouquíssimas coisas na vida o tempo não apaga, apenas acomoda.Você vai achar um lugar aí dentro para guardar tuas lembranças de modo que elas não apareçam o tempo inteiro, você vai arrumar um espaço para a espaçosa saudade; Você vai digerir o amor pelo seu esôfago a tal ponto que não te incomode mais mas esquecer você não vai. A gente acostuma a conviver com isso, a certo ponto a solidão se torna companhia constante. E a solidão que eu falo não é a da ausência física, é aquela incurável, da ausência dos sentidos, da falta de ritmo dos batimentos cardíacos...e isso tudo, foi ele que roubou, o Amor, o pior dos bandidos.

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